Entre Ecossistemas, Governança e Futuro: as lições do 15ST Prodem para a América Latina

Introdução

Entre os dias 12 e 15 de maio de 2026, a cidade de Santo Domingo, na República Dominicana, tornou-se um dos principais centros de discussão sobre empreendedorismo, inovação e políticas públicas da América Latina ao sediar o 15° Seminario Taller para Profesionales del Ecosistema Emprendedor de América Latina (15ST Prodem), promovido pela Prodem em parceria com a Universidad Iberoamericana. O encontro celebrou os 15 anos do evento e reuniu lideranças governamentais, universidades, aceleradoras, organismos multilaterais, investidores, empreendedores e especialistas de diversos países latino-americanos.

Imagem 1: cerimônia de abertura do 15ST PRODEM

Mais do que um seminário técnico, o 15ST Prodem consolidou-se como um espaço estratégico de articulação continental sobre o futuro dos ecossistemas de inovação e sobre o papel do Estado diante das transformações econômicas, sociais e tecnológicas que atravessam a região.

A participação de Criciúma neste evento de caráter internacional representou algo particularmente simbólico: uma cidade de médio porte brasileira, localizada no sul do país, sendo convidada a dividir experiências ao lado de referências latino-americanas como a Ruta N de Medellín, ANDE e o Ministério da Indústria, Comércio e MIPYMES da República Dominicana.

O convite oficial para minha participação como painelista foi realizado pela própria organização do evento, destacando a relevância da experiência desenvolvida em Criciúma no campo da governança pública, inovação e transformação digital.

Num cenário historicamente concentrado em grandes capitais econômicas e polos globais de tecnologia, a presença de uma cidade média brasileira em um debate continental sobre o futuro dos ecossistemas latino-americanos revela mudanças importantes na própria geografia da inovação. Cada vez mais, experiências territoriais bem estruturadas passam a disputar espaço não pelo tamanho de seus mercados, mas pela capacidade de articulação, visão estratégica e consistência institucional. Isso talvez diga muito sobre o momento atual da América Latina: os territórios que conseguem se organizar começam, finalmente, a ser percebidos.

Imagem 2: recepção dos participantes do 15ST PRODEM

Um encontro que vai além do empreendedorismo tradicional

O 15ST Prodem não se limitou a discutir startups, aceleração ou investimento. A agenda do evento evidenciou uma mudança importante no debate latino-americano: o empreendedorismo deixou de ser tratado apenas como mecanismo econômico e passou a ser compreendido como instrumento de transformação territorial, inclusão social e fortalecimento institucional.

Imagem 3: representando Criciúma no 15ST Prodem

Os painéis abordaram temas como:

  • governança de ecossistemas;
  • inteligência artificial aplicada a políticas públicas;
  • empreendedorismo de impacto;
  • articulação entre atores públicos e privados;
  • internacionalização;
  • venture capital;
  • inovação aberta;
  • sustentabilidade institucional;
  • continuidade das políticas públicas além dos ciclos políticos.

Essa abordagem revela uma maturidade importante dos ecossistemas latino-americanos. Durante muitos anos, grande parte das políticas públicas da região concentrou-se em ações isoladas, programas descontínuos ou iniciativas excessivamente dependentes de governos específicos. O debate atual parece caminhar em outra direção: construir estruturas permanentes de governança capazes de sobreviver às mudanças políticas e gerar impacto sistêmico.

Não por acaso, um dos workshops centrais do encontro discutiu exatamente a construção de “governanças colaborativas” para ecossistemas de inovação.

Ao longo das discussões, tornou-se evidente que muitos dos desafios latino-americanos não decorrem necessariamente da ausência de ideias, talentos ou criatividade empreendedora, mas da dificuldade histórica de transformar iniciativas promissoras em políticas públicas duradouras e institucionalizadas. Em outras palavras: a América Latina já aprendeu a criar projetos; agora precisa aprender a sustentar processos.

Imagem 4: X Encuentro de la Red de Gestores de Política de Emprendimiento Dinámico e Innovador de América Latina

A presença de Criciúma no debate latino-americano

A participação de Criciúma ocorreu no Panel 8: “La política pública frente a los nuevos desafíos del emprendimiento y de la sociedad”, realizado no dia 15 de maio.

O painel reuniu representantes de diferentes escalas de governo e ecossistemas:

  • Yamandú Delgado (ANDE – Agencia Nacional de Desarrollo – Uruguai);
  • Jorge Morales (Ministerio de Industria, Comercio y Mipymes – República Dominicana);
  • Geiner Orlando Toro (Ruta N | Medellin – Colômbia);
  • Tiago Ferro Pavan (Prefeitura de Criciúma – Brasil);
  • moderação de Jairo Tiusaba (CAF – Banco de Desarollo de America Latina y el Caribe – Peru).
Imagem 5: participação no painel “La política pública frente a los nuevos desafíos del emprendimiento y de la sociedad”

A proposta do painel era particularmente relevante: discutir como políticas públicas podem responder aos novos desafios da sociedade contemporânea, especialmente em temas como inovação, inclusão, inteligência artificial, sustentabilidade e articulação territorial.

As perguntas orientadoras do debate revelam a profundidade da discussão proposta pelo evento:

  • As políticas de empreendedorismo estão avançando ou perdendo espaço nos governos?
  • Como conectar políticas nacionais e iniciativas locais?
  • Como utilizar IA em programas públicos?
  • Como garantir impacto social?
  • Como manter políticas públicas além dos ciclos eleitorais?

Nesse contexto, a experiência de Criciúma chamou atenção justamente por apresentar uma combinação pouco comum na América Latina: transformação digital associada a governança estruturada.

Em diversos momentos do encontro, ficou clara a percepção de que a adoção de tecnologia, isoladamente, já não é suficiente para caracterizar inovação pública. Ferramentas digitais, inteligência artificial e plataformas tecnológicas passam a gerar valor real apenas quando conectadas a planejamento, integração institucional e capacidade de coordenação entre diferentes atores. Talvez por isso tantas iniciativas aparentemente modernas fracassem: porque digitalizam processos, mas não transformam estruturas.

O diferencial latino-americano: cidades médias como laboratórios de inovação pública

Historicamente, os grandes debates internacionais sobre inovação urbana concentram-se em megacidades. Contudo, o 15ST Prodem mostrou um movimento importante: cidades médias começam a ganhar protagonismo como espaços mais ágeis para implementação de políticas públicas inovadoras.

Nesse aspecto, Criciúma apresentou uma perspectiva particularmente relevante.

Ao invés de apostar apenas em ações isoladas de inovação, a cidade estruturou mecanismos permanentes de governança:

  • planejamento estratégico integrado;
  • monitoramento sistemático de projetos;
  • transformação digital;
  • integração entre áreas;
  • transparência pública;
  • fortalecimento institucional;
  • legislação específica de inovação;
  • fundo municipal de inovação;
  • articulação entre governo, universidades e ecossistema local.

Essa lógica dialoga diretamente com um dos principais consensos que emergiram do evento: ecossistemas fortes não surgem apenas de investimento financeiro. Eles dependem de coordenação institucional, confiança entre atores e continuidade administrativa.

Imagem 6: workshop de integração entre atores de diversos ecossistemas da América Latina

Em outras palavras: inovação não é apenas tecnologia. É capacidade de coordenação coletiva.

O próprio ambiente do evento demonstrava isso. Experiências territoriais distintas, vindas de diferentes países e realidades econômicas, frequentemente convergiam para desafios semelhantes relacionados à fragmentação institucional, dificuldade de continuidade e baixa articulação entre atores públicos e privados. Curiosamente, os casos mais sólidos apresentados não eram necessariamente os que possuíam mais recursos financeiros, mas os que demonstravam maior capacidade de alinhamento estratégico entre governo, academia, setor privado e sociedade civil.

Inteligência artificial e o novo papel do Estado

Outro eixo recorrente do 15ST Prodem foi a inteligência artificial. Diferentemente de muitos debates superficiais sobre IA, o evento trouxe uma discussão mais madura: como governos podem utilizar inteligência artificial para ampliar eficiência, alcance e capacidade operacional sem aprofundar desigualdades.

A questão central deixou de ser “usar IA” e passou a ser: como utilizar IA de forma ética, estratégica e inclusiva dentro das políticas públicas.

Essa discussão é especialmente relevante para a América Latina, região marcada por profundas desigualdades sociais e digitais.

Durante o encontro, ficou evidente que muitos governos ainda estão em estágio inicial de adoção tecnológica. Ao mesmo tempo, surgem experiências relevantes de utilização da IA para:

  • automação de processos;
  • atendimento digital;
  • análise de dados;
  • gestão documental;
  • apoio à tomada de decisão;
  • monitoramento de políticas públicas;
  • ampliação da transparência.

Nesse cenário, experiências a nível municipal tornam-se particularmente importantes porque conseguem testar soluções com maior velocidade e menor complexidade institucional.

Ao mesmo tempo, os debates evidenciaram que a inteligência artificial tende a ampliar diferenças já existentes entre governos mais organizados e estruturas públicas ainda fragilizadas. Em muitos casos, a capacidade de utilização estratégica da tecnologia depende menos da ferramenta em si e mais da maturidade institucional já existente. Afinal, tecnologias emergentes costumam potencializar aquilo que as organizações já são, inclusive suas fragilidades.

A principal lição do evento: governança importa

Talvez a maior conclusão do 15ST Prodem tenha sido a percepção de que os ecossistemas mais resilientes não são necessariamente os mais ricos, mas sim os mais coordenados.

Imagem 7: mais um dia de participação no 15ST Prodem

Ao longo dos debates, ficou evidente que muitos programas fracassam não por falta de boas ideias, mas por:

  • descontinuidade política;
  • baixa articulação institucional;
  • ausência de visão estratégica;
  • fragmentação entre atores;
  • dependência excessiva de lideranças individuais.

Por outro lado, os casos mais sólidos apresentados no evento tinham algo em comum: governança estruturada. Isso apareceu em diferentes escalas: cidades, universidades, organismos multilaterais, agências de desenvolvimento e redes de inovação.

A própria estrutura do GEIAL (rede latino-americana vinculada ao Prodem) demonstra essa tentativa de criar inteligência coletiva regional para além de governos específicos.

Imagem 8: reunião estratégica híbrida com grupo de trabalho da GEIAL

Curiosamente, embora governança tenha sido uma das palavras mais recorrentes ao longo do encontro, ela aparecia menos como conceito teórico e mais como elemento prático de sustentação. Em praticamente todos os casos apresentados, os avanços mais consistentes estavam associados à existência de mecanismos permanentes de coordenação, planejamento e continuidade institucional. Talvez porque projetos possam nascer de entusiasmo momentâneo, mas somente estruturas organizadas conseguem atravessar o tempo.

América Latina: desafios semelhantes, soluções compartilhadas

Outro aspecto marcante do encontro foi perceber como os desafios latino-americanos são profundamente semelhantes.

Independentemente do país, surgiam problemas recorrentes:

  • burocracia;
  • baixa integração entre atores;
  • dificuldade de financiamento;
  • descontinuidade administrativa;
  • exclusão digital;
  • dificuldade de escalar políticas públicas;
  • concentração de oportunidades.

Ao mesmo tempo, o evento mostrou algo extremamente positivo: a América Latina começa a construir uma cultura mais colaborativa de compartilhamento de experiências.

O seminário não foi estruturado como uma vitrine de “cases perfeitos”. Pelo contrário. A proposta explícita do painel orientava os participantes a compartilharem também fracassos, limitações e aprendizados.

Essa maturidade talvez seja um dos sinais mais promissores para o futuro dos ecossistemas latino-americanos.

Ao longo das conversas, tornava-se perceptível que muitos países da região começam a abandonar a lógica de simples reprodução de modelos internacionais para construir soluções mais adaptadas às suas realidades econômicas, sociais e institucionais. Há uma diferença importante entre importar inovação e desenvolver capacidade própria de transformação e o evento demonstrou que essa consciência começa a amadurecer na região.

Santo Domingo como símbolo do encontro

A escolha de Santo Domingo como sede também teve significado importante.

O material oficial do evento apresentava a cidade como um ponto de encontro entre história, cultura e modernidade, destacando sua condição de primeira cidade do continente americano e sua crescente relevância regional.

Imagem 9: (a) fortaleza Ozama, Santo Domingo,República Dominicana; (b) bandeira da República Dominicana em Santo Domingo.

O ambiente do encontro reforçou uma percepção importante: os ecossistemas de inovação não podem ser dissociados da cultura, da identidade territorial e das relações humanas.

Em muitos momentos, networking, trocas informais e conexões culturais pareciam tão relevantes quanto os próprios painéis técnicos.

Essa dimensão humana do evento talvez tenha sido um de seus aspectos mais relevantes. Em meio a discussões sobre inteligência artificial, venture capital e transformação digital, permanecia evidente que ecossistemas continuam sendo construídos, sobretudo, por relações de confiança, colaboração e capacidade de articulação entre pessoas. Nenhuma plataforma substitui completamente a construção de vínculos institucionais e humanos duradouros.

Considerações finais

O 15ST Prodem deixou uma mensagem clara: o futuro da inovação latino-americana dependerá menos de soluções importadas e mais da capacidade regional de construir modelos próprios de governança, colaboração e desenvolvimento.

A experiência de Criciúma no evento demonstra que cidades médias brasileiras podem ocupar espaço relevante nos debates internacionais quando conseguem transformar gestão pública em estratégia de longo prazo.

Imagem 10: recebimento do certificado de painelista pelas mãos de Hugo Kantis, fundador da PRODEM e GEIAL

Mais do que representar um município brasileiro em um painel internacional, a participação no 15ST Prodem evidenciou algo maior:

a América Latina começa a compreender que inovação não é apenas criar tecnologia, é criar capacidade institucional para enfrentar desafios complexos de forma colaborativa, sustentável e humana.

E talvez essa seja a principal lição do encontro:

ecossistemas fortes não são construídos apenas por startups, investimentos ou tecnologia.

São construídos por pessoas, confiança, articulação e governança.

Em um período marcado por rápidas transformações tecnológicas e instabilidade política em diferentes países da região, o encontro deixou evidente que a capacidade de construir futuro dependerá, cada vez mais, da habilidade dos territórios em combinar inovação com continuidade, tecnologia com estratégia e desenvolvimento econômico com fortalecimento institucional. Porque, no fim, cidades e ecossistemas não se transformam apenas quando adotam novas ferramentas, mas quando conseguem criar visão coletiva de longo prazo.

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